VIVA A GALERA DO JACARÉ!

CLAYTON ROMANO
Historiador e Editor F”G”!

A proposta de “fundir” os clubes de Rio Preto terá de fato o apoio entusiasmado de metade da cidade, porém deixará a outra metade terrivelmente triste

ESTÁ CERTO. Vamos então fundir RIO PRETO ESPORTE CLUBE e América Futebol Clube, pois, à primeira vista, o argumento de José Roberto Torero procede (veja post abaixo). Assim, a quente São José do Rio Preto, com seus mais de 400 mil habitantes (e cerca de 1 milhão em sua macrorregião), teria enfim “força suficiente para ombrear com os gigantes” São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Santos (
Folha de S.Paulo, 18/3/2008).

Sem dúvida, a proposta é tentadora, tanto que deverá ser assumida por boa parte dos riopretenses. Mal sabe Torero que a equação custo-benefício, tal como o “mascate”, o “negócio”, impregna e orienta fortemente as relações estabelecidas por essa gente.

Cravada no sertão dos Araraquares por ordem do Imperador, fundada pela iniciativa privada e com as bênçãos de São José, não à toa Rio Preto auto-sustenta a insígnia de “terra de oportunidades” e tem libaneses, sírios e até pragmáticos italianos entre seus mais dedicados edificadores.

Não sei se por conta dessa facilidade histórica e cotidiana em lidar com perdas e ganhos, o fato é que veio ao mundo um torcedor híbrido, um tipo que não se vê com freqüência em Campinas, Ribeirão Preto ou Florianópolis, mas que em Rio Preto tem aos montes e anda por aí, livre, leve e solto. Trata-se do “Melancia”, isto é, daquele sujeito que diz “torcer” para RIO PRETO EC (verde) e América (vermelho), sem distinção, mas que no fundo quer mesmo é ver seu time do coração e/ou os arqui-rivais (São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Santos) jogando pertinho de casa.

Um rápido exemplo: um torcedor do Santos Futebol Clube e “melancia” convicto, residente no Parque Celeste, em Rio Preto, teria de percorrer mais de 1.000 km (ida e volta) se quisesse assistir a uma partida qualquer do alvinegro (ou “alvi-celeste”?) praiano na Vila Belmiro. No entanto, o mesmo santista andou menos de 5 km (ida e volta) para ver o RIO PRETO EC vencer o Santos na Vila Universitária e conquistar sua 1ª vitória na 1ª divisão em quase 89 anos de existência.

Se perguntarmos ao nosso “santista-melancia” se ele ficou feliz com resultado, certamente ouviremos um sonoro “não”. Agora, seguindo a lógica do custo-benefício, ele fatalmente concordará que mesmo com a derrota do time do coração foi um bom negócio ir ao jogo, levar o filho (afinal, a paixão por um clube, transmitida de pai para filho, também se faz com lágrimas e decepções) e chegar em casa meia hora depois do apito final.

Logo, os “santistas-melancias”, pai e filho, continuarão na “torcida” para que o RIO PRETO EC permaneça no Paulistão e o América consiga subir. Somente assim eles verão novamente o time do coração e/ou os arqui-rivais na cidade; somente assim eles irão de novo a um estádio de futebol.

E assim os “melancias” se renovam, multiplicam...

Não há dados estatísticos específicos, mas um levantamento feito ano passado pelo Ibope dá uma idéia aproximada da quantidade desses sujeitos na cidade. Segundo os números publicados pelo Diário da Região (3/11/2007), 33% dos 406 entrevistados declararam preferência pelo América, 18% se disseram torcedores do RIO PRETO EC, 45% "Nenhum" e 5% "Não sabe/Não opinou" (os percentuais foram arredondados pelo jornal).

Em outras palavras, metade dos riopretenses não está nem aí para RIO PRETO EC ou América, enquanto a outra metade se divide na torcida pelos dois clubes.

Sob o pretexto de evitar novos fiascos de Jacaré e Diabo, calcada numa equação econômica de perdas e ganhos, a proposta de “fundir” os clubes de Rio Preto terá de fato o apoio entusiasmado de metade da cidade (vale dizer, apenas em dias de “grandes jogos”). A iniciativa pode até lograr êxito e conseguir montar um “grande time”, porém deixará a outra metade terrivelmente triste. As conversas no Bar do Rubinho, no Mercadão ou na barranca do rio nunca mais serão as mesmas, jamais terão a mesma graça.

Analisando friamente, com o olhar fixo nessa tal balança custo-benefício: valerá mesmo a pena extinguir o que Rio Preto tem de genuíno, a saber, seus clubes, seus “torcedores de arquibancada”, a cordial rivalidade, em nome de uma criação “artificial”, sem história, meramente mercantil e freqüentada por “torcedores de sofá”?

Honestamente, não!

Vida longa ao Glorioso RIO PRETO ESPORTE CLUBE!

Viva a galera do Jacaré!

FORÇA "GLORINHA"!

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